17 março 2006

...
Oh, eu não te culpo, flor,
esguia flor de eriçado ímpeto,
não te nego o direito
de levar o relâmpago
que a terra engendrou com a tua formosura,
para a casa dos ricos.
Eu tenho a certeza
que amanhã
florescerás em todas
as habitações do homem.
Não terás medo da rua esconsa,
nem haverá ao cimo da terra
sombrios tugúrios
onde não entre a primavera.
Não te culpo, flor, estou ciente
do que te digo,
e para que floresças onde deves
florescer, em todas as janelas,
é que eu luto,
flor,
e canto a partir de agora, assim
duma forma tão simples,
para toda a gente,
e reparto
as flores de amanhã

Pablo Neruda - Ode à flor
Tradução de Luis Pignatelli