22 maio 2006

E há poetas que são artistas
E trabalham nos seus versos
Como um carpinteiro nas tábuas!...

Que triste não saber florir!
Ter que pôr verso sobre verso, como quem constrói um muro
E ver se está bem, e tirar se não está!...
Quando a única casa artística é a Terra toda
Que varia e está sempre bem e é sempre a mesma.

Penso nisto, não como quem pensa, mas como quem respira,
E olho para as flores e sorrio...
Não sei se elas me compreendem
Nem sei eu as compreendo a elas,
Mas sei que a verdade está nelas e em mim
E na nossa comum divindade
De nos deixarmos ir e viver pela Terra
E levar ao solo pelas Estações contentes
E deixar que o vento cante para adormecermos
E não termos sonhos no nosso sono.

Fernando Pessoa/Alberto Caeiro - O guardador de rebanhos
Foto de Platero

2 comentários:

Anónimo disse...

Absolutamente prodigoso.
Adoro Fernando Pessoa!!
Foto bem em conformidade com a fotografia!

Bípede Implume disse...

Salut, Cristina!
Só hoje voltei ao blog e fiquei feliz com o teu comentário. Muito obrigada. Fernando Pessoa é também um dos meus poetas preferidos.